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domingo, 12 de abril de 2015

Águas Mortas

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão
Estão a mapear a hidrografia de São Paulo e, acabaram descobrindo “rios invisíveis”. Dobrou-se a bacia hidrográfica do estado, com a descoberta de “novos” riachos e nascentes. A foto na reportagem do jornal o Estado de São Paulo (http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/edison-veiga/hidrografia-de-sp-dobra-com-a-descoberta-de-300-rios-invisiveis/), não deixa dúvidas quanto a razão de estes não terem sido encontrados, antes. Estão cobertos por lixo, garrafas plásticas e, toda sorte de imundícies. Não seria exagerada a notícia, informasse ter sido descoberta uma das maiores redes de esgotos a céu aberto do país e, possivelmente do mundo. Exagero está em chamar o esquelético riachinho da foto de “rio”. É possível que o repórter seja jovem e, não saiba o que é um rio de verdade, já que os que restaram, não passam de corredores por onde correm os dejetos das cidades.

Dias atrás, comentava eu que, criança, sempre quando chegava a algum lugar para onde viajava, a primeira pergunta que fazia aos outros meninos ou adultos, era: Tem rio? Tem lagoa? Se não houvesse, a visita caía muito em meu interesse. Se sim, as perguntas seguintes eram: É fundo? – “da pé”? É verdade que custou-me bons sustos e, pelo menos em 2 ocasiões, quase a vida mas, o encanto que um rio de águas limpas causava nas crianças – e também nos adultos – era inegável. Sou de opinião que toda criança deveria, no mínimo, ter a oportunidade de subir em um pé de ingá, comer seus frutos (ingá é fruta?), e pular para dentro do rio. Fiz isso, muitas vezes, em meu, então limpo, Itapemirim. Fazer uma jangada de troncos de bambú e, descobrir as magias da navegação. Sim, navegação. Cheguei a sentir-me como um almirante inglês em minha jangada de troncos de bananeira que, sem demora, encharcados de água, afundava antes que pudéssemos nela subir....

Pieguices a parte, que os dias são secos e desertos, faz muito tempo que os rios de São Paulo tem sido vítimas da violência das pessoas e, do descaso e da irresponsabilidade das autoridades. Lembro com pesar, ter visto os riachos da cidade onde morei por bom tempo, Santo André, morrerem soterrados por despejos químicos, pneus, animais mortos, sofás, e toda sorte de lixo urbano... As chuvas, naqueles tempos mais frequentes e torrenciais, caíam e limpavam as sujeiras, mostrando aos homens, ainda que por um curto período de tempo, o quão belas seriam as cidades, se a convivência dos homens com a natureza fosse mais harmoniosa. Mas, esta, nunca conseguiu convence-los com seus sábios sinais e, logo em seguida, la estavam, novamente, os pobres rios entulhados de imundícies do cotidiano pobre, triste, de vidas miseráveis.... Não fosse essa tragédia suficiente para apagar a graça de nossos rios e belas florestas, adicionou-se a ela a burrice oficial de nossas autoridades. E, essa é, com certeza, a de maior malignidade pois que é o resultado de desonestidade (corrupção), ignorância e burrice, somados. Vem na forma de “obras” para melhorias contra enchentes. Ora, as enchentes são causadas pela retificação do leito dos rios. Os naturais e belos meandros que o rio faz para seguir seu caminho, é substituído por um leito reto, sem obstáculos, feio, sem nenhuma graça ou beleza. As águas, principalmente em épocas de chuva, descem com força e velocidade, destruindo tudo que encontram pela frente. E, pela frente, há muita ocupação desordenada, fruto da ganância imobiliária; ocupação esta, autorizada, muitas vezes, sob o argumento poderoso das propinas as autoridades de plantão. Em seguida, será necessário desassorear o rio, agora, então, entupido pelo que carregou sua enchente. E la estão as empreiteiras, como urubús sobre a carniça dos animais mortos que emporcalham os rios, prontas a tirar o entulho acima do rio e deposita-lo... abaixo do rio. É esse circulo vicioso, maldito, que assassinou os nossos rios, os quais teriam ajudado em muito a aliviar esta seca de proporções quase bíblicas que assolou São Paulo neste ultimo verão, não estivessem  estes já mortos, fétidos, apodrecendo lentamente ao sol dos trópicos...

Há gente que desconhece correr embaixo do vale que lhe emprestou o nome, o velho rio Anhangabaú...  Anhangabaú, na vogalmente sonora língua dos primeiros habitantes de nosso pais, quer dizer Rio das Maldições... Em estranha e certeira profecia, os índios guaranis assim o batizaram...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Adeus...

De quantos Adeus! é feita uma vida? Poucas coisas são tão certas de acontecer ao longo da existência, quanto a um Adeus!... São tantos os amores que se vão... de mãe, de companheira, de filhos, de amigos, de pessoas sem título algum mas, absolutamente queridas... pode variar o sabor do Adeus! mas, este é sempre mais, ou menos, amargo... 

Na longa estrada percorrida por quem um dia partiu, até que chegasse a quem o esperava, já, ali mesmo, naquela chegada, iniciou-se um dolorido Adeus! Há pessoas queridas que nunca disseram Adeus! mas, também nunca chegaram a nós, por mais as tenhamos esperado. Ficaram ali todo o tempo... víamo-las,  sabíamos de sua existência mas, nunca chegaram... Há, também, aquelas as quais nunca vimos e, em nós sempre estiveram. Nasceram de um sonho e, em melancólica reflexão, sabemos que estão em algum lugar, em algum tempo, distantes, em outra dimensão talvez. Em lampejos de razão, temos a certeza de que jamais farão parte de nossa existência ... Há pessoas que passam e, mal chegam em nosso porto. Um breve Olá! seguido de um rápido Adeus! Não há tempo para sofrimentos; não há tempo para alegrias. A vida é rápida e indolor naquele momento de pequena esperança em alguém que veio, sem avisar que partirá, assim, tão rápido como chegou... Mas há aquelas que lá sempre estiveram a nossa vista... quietas, adormecidas, latentes... um dia, despertam, brilham, iluminam nossa existência e, desaparecem na noite do esquecimento, tal como fugaz estrela cadente em noite de lua tímida... Cegados pela intensa luz que trouxeram, permanecemos imóveis,  aturdidos, sem enxergar o caminho por onde seguir... É aguardar que as águas dos dias passem e, carreguem consigo os escolhos da tormenta que se abateu sobre nossa confusa alma que busca saber o que lhe aconteceu... e viver para um novo Adeus...  o Adeus de alguém que partiu depois de longos anos de convivência, permeados de alegria, dores, contrariedadesraivas, derrotas, tristezas e vitórias... É angustiante aceitar sem maldizer a partida da qual sabíamos mas, recusavámo-nos a pensar fosse, um dia, acontecer. Ter de soltar as mãos que seguram-se no último enlace dos dedos, que se negam a permitir que se vá uma parcela de nossas vidas... São, essas pessoas, como que parte de nosso corpo, tal como uma mão, uma perna, um braço, um ôlho... estavam ali e, de repente, não estão mais! Inicia-se o duro processo de aprender a viver mutilado para sempre... Naquele momento, desaparecemos um pouco; junto com esse alguém que se foi... Se toda chegada é o alvorecer de uma existencia, é certo que morre-se um pouco a cada partida... 

Revoltar-se diante de irrevogável Adeus! é má escolha. O melhor que se faz, é aceitá-lo com abnegada renúncia e coragem. É como escolher entre um cálice de fel, ou de mel ligeiramente amargo... mel da esperança. Esperança, quem sabe vã, do reencontro... para um novo Adeus!



quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um novo ano...

Então, um ano mais se foi... Alguém, querido ou odiado, morreu. Alguém, ficou doente ou curou-se de grave enfermidade. Alguém, achou ou perdeu um grande amor. Alguém, ficou rico ou pobre, de dinheiro ou de espírito. E, assim, a depender de a quem se pergunte, o ano foi muito bom ou, muito ruim...

Houve a senhora moça que, muito orgulhosa, veio mostrar-me o anel de casamento. Já era velha há muito tempo e, a natureza não lhe foi amiga na premiação dos dotes físicos. A alegria que transpareci, foi a mais sincera que pude destilar. Ela, agora com os sentidos altamente aguçados, notou a emoção e, deve ter lido as origens desta. Não era mais tempo de se questionar origens de coisa alguma... O ano de 2014 foi muito bom e, isso basta a minha amiga.

Aconteceu, também, de um velho amigo perder a companheira de muitos anos... dezenas deles. Não tenho maiores detalhes do infortúnio que acometeu o casal, além daqueles publicados no Facebook. Se aqui uso de questionável liberalidade ao comentar a tragédia, é porque o amigo ja o publicou naquela que é hoje a mais poderosa ferramenta de divulgação de seja la o que quer que se queira divulgar. E, foi essa a sua patife vingança. Delatou publicamente o que ele classifica de traição do ex-adorado-amor, agora rebaixado a categoria de odiado amor. Enfim, 2014 não foi um bom ano para essas pessoas e, la um homem ficou sem sua mulher e, esta exposta ao malefício da dúvida, até traição em contrario.

Pessoas queridas venceram, depois de obstinada e infatigável batalha, doenças graves e mortais. Andrajosas, cuidam das feridas remanescentes do feroz combate. Cada diagnóstico que comprove a vitória sobre a doença, causa emoção semelhante a comutação de pena de morte para vida perpétua. O surgimento de uma, antes corriqueira, mecha de ondulado cabelo, é agora comemorado como um milagre divino. O retorno a antiga aparência física, graças as madeixas que renascem, é algo de emoção comparável ao surgimento dos seios na adolescência. As cicatrizes oriundas de cirurgias inadiáveis, são agora tratadas com desvelo, em justa vaidade e demonstração de amor a vida. O lento desaparecer de cada uma das marcas ganhas na peleja, causa a mesma emoção de um nascer de sol por detrás de bela montanha. A Natureza está lá fora a garantir que a Primavera sempre vem. O ano de 2014 foi bom; a morte, agora distante, não é tão feia quanto diziam...

Assim é que, 2014 não foi significantemente diferente dos outros milhares de anos que o antecederam. Não durou nada além de 365 dias, 6 horas e reles minutos, assim como seus falecidos irmãos. Tempo suficiente para que um caudal de emoções fosse vivido por, quem sabe quantos milhões, bilhões de pessoas. A umas, a redescoberta da empoeirada capacidade de se apaixonar. A outros, a melancolia de um amor que termina na cal da traição. A tantos outros, depois de vencida mortal enfermidade, nova oportunidade para reavaliar hábitos e conceitos de vida. Como sempre, na elegia ao desaparecimento de um ano que se vai e, na comemoração do ano que se inicia, juras de fé na vida e, a esperança de que se encontre arranjo para os desacertos, alivio para as dores, alegria para as tristezas crônicas; que o amor vença o ódio; que o egoismo de lugar a generosidade; que a compaixão substitua a indiferença e que, a amizade seja o verdadeiro laço familiar entre as pessoas. Não importa a religião e deuses. Importa sim, que tenhamos fé para seguir adiante e que, a morte seja somente um intervalo para descanso da alma, depois de tantas paixões, acertos, enganos e desatinos.

Feliz 2015!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Senhoras do Calendário... e do Tempo!


Segundas-feiras tem a fama de serem o pior dia do calendário, ainda que não haja fundamento lógico para esse mau humor, injustamente dedicado ao primeiro dia útil  da semana. Eis aqui, mais uma prova: Hoje, segunda-feira, deparo-me com a notícia de que, já na nona edição, Senhoras do Calendário 2015, traz fotos de belas mulheres nuas. A caçula das meninas, carrega sem demonstrar cansaço, nada menos do que o peso de 55 anos de idade. É importante ressaltar que, Eduardo Araúju, assim com "u" mesmo, inspirador do projeto Senhoras do Calendário, exige das "vovós" meros 40 anos como idade mínima para que possam posar nuas diante de suas câmeras. Teriam as jovens senhoras de 40, recém-"aposentadas" do time jovem, se escondido do cruel olho da máquina fotográfica que a tudo vê? Ou, teriam lá corajosamente comparecido e, aconteceu de serem miseravelmente surradas pelas venerandas senhoras de 55 ou mais? Nunca saberemos a resposta para esse mistério escondido no cipoal das vaidades cariocas... Mais importante em tudo isso, é observar que, há, e sempre houve, muita beleza escondida por debaixo de sisudas e antigas indumentárias, verdadeiras mortalhas, impostas as mulheres, depois que estas atingem determinada idade.  É difícil dizer e, não se deve dizer, qual é a idade em que alguém deve vestir este ou aquele traje... Participo da opinião de que o mundo vê a pessoa, como esta vê a si própria. A verdadeira questão é identificar a linha que separa o ridículo da elegância, tênue para quem se expõem e que, exige fino paladar de quem aprecia e julga. Daí, seu valor quase artístico.

Não é mais nenhuma novidade o fato de homens mais jovens, se apaixonarem por mulheres com muito mais idade do que estes e, permanecerem no relacionamento por anos a fio, como prova de que a escolha foi acertada. E, se não digo permanecer para sempre, é porque a cada dia mais, os relacionamentos são assumidos com a idéia de que sejam eternos enquanto durem. Mulheres relacionando-se com homens mais velhos, sempre foi fato aceito com um pouco mais de condescendência pelas sociedades de todo mundo. Se a fagulha que dá inicio aos grandes amores, é a beleza, as fotos de Araúju recomendam que se olhe com olhos de ver as beldades donas de belezas que sobrevivem com grande louvor e, nenhum favor de quem as elogia, aos insultos do Tempo.
No início, fiz apologia as mal afamadas segundas-feiras porque, logo após a animadora visão das fotos das dignas e bisextas modêlos, inadvertidamente naveguei para a informação de que "A bela escritora Lou Andreas-Salomé é lembrada por sua ligação sucessiva com três gênios: o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, o poeta Rainer Maria Rilke e o fundador da psicanálise Sigmund Freud". Logo adiante, o artigo reforça meu entusiasmo pela vitória das meninas cariocas, informando que, apesar de toda genialidade de Freud, demonstrada ao vasculhar e levar luz as profundezas de escuras almas, e da clarividência de Nietzsche ao definir com cruel sinceridade nossa irremediável submissão a eternidade do vir-a-ser, Lou Andreas entregou sua decantada beleza ao poeta Rilke, 17 anos mais moço do que esta. Este, sábiamente, aceitou o afeto e os carinhos de Lou por longos anos, então... Devo dizer, sem que isto constitua desabono a importância da beleza física mas, por honestidade para com os fatos: Lou Andreas, além de bela, era culta e inteligente. Afirma-se, e nisto também acredito, que a inteligência é afrodisíaca. Tenho certeza de que Rilke, além de poeta, foi, também, feliz!
Assim é que, informo aos incautos; as segundas-feiras são tão boas, quanto o são as sextas, as quintas e, os quintos dos infernos, sempre a depender com que olhos se os veem! Nao importa a idade; importa, sim, a beleza encontrada pelo olhar que filtra as feiuras e agruras do cotidiano duro. Cotidiano este que, nos é imposto e ao qual, muitas vezes, convenientemente, nos submetemos... Abra os olhos!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MEU VOTO NO PT!

Votei no PT e seus candidatos, na década de 80 e 90. Lula e sua obstinação representavam o "contra tudo que estava la". Entre o olhar alucinado de Collor, aceso por cívico ou andino alucinógeno - nunca saberemos - e, a voz roufenha do, então, jovem sindicalista, gasta e áspera por tantos palanques e sofridos megafones, fiquei com esta ultima. Assim, sinto-me no dever de deixar aqui agradecimento aos companheiros de tantas ilusões, ganhas e perdidas:

  • A luta valeu! Ha emprego para todos, com salários excelentes que permitem ao trabalhador comprar tudo que produz.
  • A coerência foi mantida. O patrão aprendeu a dividir a riqueza com quem a produz. A desigualdade acabou. Prova disso:
  • As favelas encolheram ou, mesmo desapareceram.
  • A criminalidade esta dentro de níveis razoáveis, consequência do pleno emprego e dos bons salários. 
  • O comercio de drogas só eh visível nas estatísticas de consumo. O emprego de jovens nessa atividade, foi reduzido ou, praticamente, desapareceu.
  • A segurança nas grandes cidades, eh uma realidade. Pode-se caminhar com segurança a qualquer hora do dia e da noite. De fato, humanizaram-se estas, atraindo grande numero de estrangeiros que desejam visitar o pais.
  • As escolas de nível básico brasileiras, são mostra evidente das grandes conquistas sociais do PT. Professores de bom nível e, decentemente pagos. As crianças tem a disposição alimentação de boa qualidade e, instalações esportivas modernas. O grande feito petista, deve-se reconhecer, foi a formação de novas gerações com perspectivas reais de um futuro brilhante. Ai esta, onde o pais mudou para muito melhor, tudo isso com baixo investimento, quando comparado com os extraordinários resultados obtidos. Uma promessa cumprida ao pe-da-letra! Brizola sempre almejou isto. Coube ao PT mostrar como realizar este sonho da nação!
  • Integridade e honestidade na condução da coisa publica. Outra marca do PT. Isto nunca foi possível desde as oligarquias cafeeiras/leiteiras. A improbidade eh palavra esquecida na pratica politica brasileira. Vence o PT junto a população, demonstrando como eh a sadia pratica da Politica. O ingresso do PT nos poderes da Republica, foi a linha divisória que separou a negociata; as manobras escusas, da clareza, da honestidade e honra, característica numero um do partido, desde sempre. 
  • Poderia citar os atributos pessoais de quadros petistas mas, o caudilhismo, o personalismo, não são e nunca foram marcas, sequer pálidas, na carreira deste partido que alavancou o pais na direção de seus grandes ideais de maneira irreversível. Ainda assim, quero realçar o grande incentivo dado por Lula as nossas crianças para que estudem, cultivem bons hábitos e, tenham fé irremovível na decência.
  • Nada disso seria possível, não houvesse no Brasil povo de caráter onde as propostas trabalhistas encontraram incondicional apoio. Povo que não negocia sua honestidade por vantagens pecuniárias, seja la de que valor ou alcance. A família brasileira esta de parabéns por essa demonstração de integridade.

Muito obrigado!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Foi falta!

www.madadventurers.com
Perdida em selvas e pantanais da consciência, em busca do macaco que lhe escapou pela boca, está a torcedora do respeitável Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Dela, leio na Folha grave confissão, provavelmente feita como oferenda extrema para aplacar a sanha dos homens e, se possível, apagar a dura mensagem que a Lei lhe manda. O jornal explora como pode a declaração e, confunde-se nas chamadas para a noticia. Em uma delas a torcedora diz ter ficado com UM negro. Na coluna das 10 Mais Lidas, o jornal declara que esta ficou com negros. Depois, na reportagem, lê-se a afirmação da senhorita onde afirma, novamente, ter ficado com UM cara negro... O número de negros, não pertence a conta de ninguém, salvo a declarante. Oportunidade para edificação da ética e da boa convivência entre as pessoas, é o que o triste episodio oferece e, aqui interessa. 

Eu cá, reparo o quanto é difícil, em maior ou menor grau, a compreensão do que é racismo em sua completa extensão. Entende a torcedora que, a gratuita informação de já ter "ficado" com um negro, ou negros como quer o jornal, confere-lhe generosidade, nobreza, ou, mesmo, constitui-se em exemplo de abnegação. Em sua pequena cabeça, "ficar" com um negro é ato de bravura, generosidade da "senhora do engenho" para com a senzala. Pobre moça. Suas confissões se alongam. Informa não ter mais casa e vida social. Toma remédios para dormir e, não tem mais saído. Poderia aproveitar o tempo de que agora dispõem, para melhorar um pouquinho a compreensão das regras que regulam a vida social que tanta falta lhe faz. 
Acredito que no Brasil, há o errado entendimento de que "o negro sabe que não falo por maldade". Pode ser que, não. Minimamente falando, não fará falta alguma as pessoas; não trará nenhum dano psicológico, simplesmente parar com esse tipo de conversa maldosa e pobre. Já para a vitima que tem de ouvir abjetas gracinhas, o dano é grande e, ainda que, generosamente, venha a digerir a ofensa, isso nada lhe acrescenta. Ao contrário; ali começa o processo de recalque, de formação de um vira-lata, o que não interessa a nenhuma pessoa decente, menos ainda, ao país. Com a palavra, o macaco.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Continental Divide

Montana
Em recente visita ao Canada, Província de Alberta, paisagens extasiantes surpreendiam a cada volta do longo caminho de 1.600 km. O Canada é um belo pais; humilde e tardiamente, confirmo o que dizem as pessoas e, principalmente, os números. Faço questão do destaque aos números, sabendo-se que, as pessoas mentem e a estes manipulam.

Por mais que me esforce, tento não pensar no Brasil e, compara-lo aos lugares que visito. Impossível. É um ato tão incontrolável, quanto a um piscar de olhos; ao pulsar do coração... Busco nos números, explicação para as diferenças que maltratam meu orgulho: O Canada tem índice de qualidade de vida situado entre os 10 primeiros. O Brasil esta varias dezenas abaixo, aproximando-se da centésima colocação... Não coincidentemente, o Canada situa-se entre os 10 países com o menor índice de corrupção, enquanto o Brasil esta na 43a. colocação... Isso ajuda a entender a ausência de mendigos e crianças abandonadas pelas ruas... Há pobreza sim, mas é uma pobreza canadense; muitas coordenadas acima na latitude geográfica e humana. Acredito que o componente cultural, deixou marca indelével nas atitudes que norteiam a administração dos dois países. A vastidão territorial é caracteristica comum. Não passa despercebida nem ao mais distraído dos viajantes a poderosa agro-industria, tanto brasileira, como a canadense. Entretanto, invisível aos olhos de quem pelas estradas passa, esta o endurecido coração do latifundiario brasileiro, diferente da visão pragmática do agricultor canadense, que produz para ganhar no presente, enquanto o brasileiro usa a terra para defender-se das incertezas do futuro. Apesar de ser o 2o. maior pais do mundo, com uma população 6 vezes menor do que a brasileira, nao ha fazendas de dimensões continentais no Canada.  Todos sabemos do MST e seus justiceiros sacanas; assim como das grandes fazendas da agro-industria, muitas vezes, com milhões de acres de terras improdutivas... Melhor olhar as paisagens nas fotos e, registradas na mente. 

Sociologia a parte, ir a Montana sempre foi uma das prioridades entre os lugares a visitar. Um filme que assisti tempos atras; A River Runs Through It, motivou-me ainda mais. Não sei o nome em português mas, tenho certeza, deve ser ainda mais bonito traduzido a flor-do-lacio. Muita porcaria filmada, foi salva do prejuízo por criativos títulos em português.... O rio estava la e, continua a correr através de pedras, montanhas, grandes e pequenas vilas, e corações.... Fizeram questão de acrescentar nas placas de direcoes, os nomes indígenas e acentos gráficos que, normalmente, não existem em inglês, na grafia do nome indígena... Ficou muito parecido com escritos árabes... uma simpática confusão linguística. Houve momentos em que pensei ter saído atrás de A River Runs Through It e, acabei em Casablanca... Pior, mesmo, só no Canada, onde as placas são grafadas em inglês e francês, o que fez com que reduzissem o tamanho das letras, para não ter de aumentar o tamanho das placas... É preciso estar com o exame de vista em dia... Descobri que o mundo descrito em francês, é maior...

Voltando a Montana, estado 1.5 vezes maior que o estado de São Paulo, com uma população estimada em 1 milhão de pessoas, talvez uma Campinas, a natureza esta preservada em toda sua beleza original, em seus grandes parques nacionais e, vazios naturais. A Going-to-the-Sun Road por si só justificaria a grande distancia a percorrer. Construída na década de 30, as marcas do grande esforço la despendido dada a ausência dos extraordinários avanços em equipamento e engenharia feitos desde entao, sublinham ainda mais a beleza das montanhas, agora cobertas de verde, vales, e rios de um azul turquesa que escraviza o olhar com sua variedade de tons. Há o inverno durissimo, sim, mas, agora é verão... Nas pequenas cidades, o bom gosto do dollar esta presente nos hotéis e saloons construídos em madeira e outros materiais que não ofendam a beleza natural predominante. A população indígena é grande e, esta por toda parte. Ali, no oeste de Montana, estão os Blackfeet e Flathead, a dar maior autenticidade a paisagem e a vida do lugar. Haveria muito mais a falar de Montana e, Alberta no Canada. Entretanto, assalta-me o incomodo sentimento de que posso estar a abusar da paciência dos amigos e incautos que porventura até aqui chegaram. Tenho certeza de que o Rio que Corre Através do Lugar ali ira permanecer a séculos por vir, dispensando narrativas falhas e pobres, diante de tantas e inenarráveis belezas...

Varias vezes durante o percurso, uma linha chamada Continental Divide surgiu sinalizada nas placas de informaçoes geográficas do lugar. Em casa, li que isso sinaliza a direcção para a qual as águas e rios se dirigem; Atlântico ou Pacifico, Artico ou Golfo... Há uma Continental Divide entre  homens de bem e patifes, estes últimos, em sua maioria, logo abaixo do Rio Grande. O nome dessa linha é Lei...