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domingo, 12 de abril de 2015

Águas Mortas

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão
Estão a mapear a hidrografia de São Paulo e, acabaram descobrindo “rios invisíveis”. Dobrou-se a bacia hidrográfica do estado, com a descoberta de “novos” riachos e nascentes. A foto na reportagem do jornal o Estado de São Paulo (http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/edison-veiga/hidrografia-de-sp-dobra-com-a-descoberta-de-300-rios-invisiveis/), não deixa dúvidas quanto a razão de estes não terem sido encontrados, antes. Estão cobertos por lixo, garrafas plásticas e, toda sorte de imundícies. Não seria exagerada a notícia, informasse ter sido descoberta uma das maiores redes de esgotos a céu aberto do país e, possivelmente do mundo. Exagero está em chamar o esquelético riachinho da foto de “rio”. É possível que o repórter seja jovem e, não saiba o que é um rio de verdade, já que os que restaram, não passam de corredores por onde correm os dejetos das cidades.

Dias atrás, comentava eu que, criança, sempre quando chegava a algum lugar para onde viajava, a primeira pergunta que fazia aos outros meninos ou adultos, era: Tem rio? Tem lagoa? Se não houvesse, a visita caía muito em meu interesse. Se sim, as perguntas seguintes eram: É fundo? – “da pé”? É verdade que custou-me bons sustos e, pelo menos em 2 ocasiões, quase a vida mas, o encanto que um rio de águas limpas causava nas crianças – e também nos adultos – era inegável. Sou de opinião que toda criança deveria, no mínimo, ter a oportunidade de subir em um pé de ingá, comer seus frutos (ingá é fruta?), e pular para dentro do rio. Fiz isso, muitas vezes, em meu, então limpo, Itapemirim. Fazer uma jangada de troncos de bambú e, descobrir as magias da navegação. Sim, navegação. Cheguei a sentir-me como um almirante inglês em minha jangada de troncos de bananeira que, sem demora, encharcados de água, afundava antes que pudéssemos nela subir....

Pieguices a parte, que os dias são secos e desertos, faz muito tempo que os rios de São Paulo tem sido vítimas da violência das pessoas e, do descaso e da irresponsabilidade das autoridades. Lembro com pesar, ter visto os riachos da cidade onde morei por bom tempo, Santo André, morrerem soterrados por despejos químicos, pneus, animais mortos, sofás, e toda sorte de lixo urbano... As chuvas, naqueles tempos mais frequentes e torrenciais, caíam e limpavam as sujeiras, mostrando aos homens, ainda que por um curto período de tempo, o quão belas seriam as cidades, se a convivência dos homens com a natureza fosse mais harmoniosa. Mas, esta, nunca conseguiu convence-los com seus sábios sinais e, logo em seguida, la estavam, novamente, os pobres rios entulhados de imundícies do cotidiano pobre, triste, de vidas miseráveis.... Não fosse essa tragédia suficiente para apagar a graça de nossos rios e belas florestas, adicionou-se a ela a burrice oficial de nossas autoridades. E, essa é, com certeza, a de maior malignidade pois que é o resultado de desonestidade (corrupção), ignorância e burrice, somados. Vem na forma de “obras” para melhorias contra enchentes. Ora, as enchentes são causadas pela retificação do leito dos rios. Os naturais e belos meandros que o rio faz para seguir seu caminho, é substituído por um leito reto, sem obstáculos, feio, sem nenhuma graça ou beleza. As águas, principalmente em épocas de chuva, descem com força e velocidade, destruindo tudo que encontram pela frente. E, pela frente, há muita ocupação desordenada, fruto da ganância imobiliária; ocupação esta, autorizada, muitas vezes, sob o argumento poderoso das propinas as autoridades de plantão. Em seguida, será necessário desassorear o rio, agora, então, entupido pelo que carregou sua enchente. E la estão as empreiteiras, como urubús sobre a carniça dos animais mortos que emporcalham os rios, prontas a tirar o entulho acima do rio e deposita-lo... abaixo do rio. É esse circulo vicioso, maldito, que assassinou os nossos rios, os quais teriam ajudado em muito a aliviar esta seca de proporções quase bíblicas que assolou São Paulo neste ultimo verão, não estivessem  estes já mortos, fétidos, apodrecendo lentamente ao sol dos trópicos...

Há gente que desconhece correr embaixo do vale que lhe emprestou o nome, o velho rio Anhangabaú...  Anhangabaú, na vogalmente sonora língua dos primeiros habitantes de nosso pais, quer dizer Rio das Maldições... Em estranha e certeira profecia, os índios guaranis assim o batizaram...
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